Orientações para Celebrações Ecumênicas



O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), buscando ser fiel à oração do Senhor Jesus Cristo, “para que todos sejam um” (Jo 17,21) tem estimulado as celebrações ecumênicas, especialmente por ocasião da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Vê com alegria as inúmeras iniciativas de celebrações ecumênicas tomadas por diferentes grupos e comunidades, em distintas ocasiões. No contexto ecumênico, celebrar é fortalecer laços de amizade, é aprofundar o conhecimento mútuo, é crescer em direção à unidade, na prática comum da adoração, do louvor e da oração.

É importante que tal prática cresça mais ainda. Em cada encontro de grupos e comunidades de confissões diferentes é importante que se experimente a celebração conjunta. Temos certeza de que, através da oração comum, o Senhor Jesus nos ajudará e fortalecerá no caminho da unidade. A cada celebração comum tornar-se-á mais claro o que nos une. Ver-se-á também mais claramente o que é próprio e específico de cada denominação cristã: as tradições distintas, em canto e oração, as diferentes compreensões de liturgia e sacramentos, acentos distintos no anúncio da Palavra. E a oração pela unidade nos fará crescer em fé, esperança e amor, apesar das diferenças.

Não obstante, não se pode ignorar tais diferenças. Ainda que, em muitos aspectos, as Igrejas cristãs estejam bem próximas umas das outras, em alguns outros há divergências. E se queremos celebrar o que nos une, é fundamental que em nosso entusiasmo não voltemos a nos magoar reciprocamente. O que é possível e normal, e até mesmo essencial para uns, pode não sê-lo para outros, por razões doutrinárias ou de costume. O que parece lógico na liturgia de minha comunidade pode não sê-lo para a outra.

Tanto mais necessário será, pois, buscar aprofundar o conhecimento mútuo, de Igreja em Igreja, antes de prepararmos qualquer celebração. Visitas às celebrações particulares, de parte a parte, diálogo sobre questões doutrinárias e litúrgicas, informação recíproca sobre as tradições e costumes litúrgicos deveriam sempre preceder qualquer celebração ecumênica.

As Igrejas que compõem o CONIC têm dialogado constantemente sobre tais questões. É a partir desse diálogo que brotam as orientações aqui propostas. Tomam em conta o conjunto de nossas Igrejas. Não querem limitar as celebrações ecumênicas entre comunidades ou grupos de Igrejas, cuja compreensão litúrgica ou sacramental permita maiores avanços. Querem, antes, respeitar e ajudar a respeitar os limites próprios de cada confissão, servindo de auxílio para uma crescente prática de tais celebrações. Antes de mais nada, porém, são a expressão de nosso grande anseio e de nossa mais forte esperança por uma unidade cada vez mais efetiva das comunidades cristãs, apesar das dificuldades que todos nós sentimos em concretizá-la na Santa Ceia. Temos certeza de que, no futuro, o Senhor mesmo nos reunirá a todos e todas em torno de sua mesa.

Enquanto esperamos firmemente esta unidade vindoura, julgamos importante que, para celebrações ecumênicas, tome-se em conta o que se segue:

Preparo conjunto de celebração por todas as partes envolvidas

É de fundamental importância que qualquer celebração ecumênica seja preparada em conjunto, desde o seu mais remoto princípio. De comunidade a comunidade ou em grupos ecumênicos que querem celebrar seu encontro, sempre será necessário que todas as partes estejam representadas em tal preparação. É impensável que representantes de um ou dois grupos denominacionais preparem tudo e depois convidem os outros. Mesmo que, em algum encontro ecumênico, um dos grupos denominacionais esteja fracamente representado, quem sabe por apenas uma pessoa, não existe argumento para não convidá-la para a preparação. Sua identidade confessional precisa ser respeitada desde o início.

No preparo conjunto da celebração será necessário definir:

– as pessoas que tomarão parte na oração comum;
– os motivos para essa celebração;
– os textos bíblicos, os hinos e as orações;
– o local da celebração;
– os serviços e o papel que cada pessoa desempenhará na celebração.

Preocupação com a sensibilidade da comunidade que se reunirá

A representação de todas as partes, mesmo das minoritárias, no preparo da celebração, garante, desde o início, uma preocupação com a sensibilidade da comunidade que se reunirá. Afinal, todas as pessoas que depois participarão devem poder sentir-se à vontade na celebração. O mal-estar por parte de um grupo ou mesmo de uma só pessoa quebrará a unidade que se almeja na oração comum.

Em vista disso, um bom preparo da celebração deverá contar com a sinceridade fraterna de todas as partes. É fundamental que cada representante confessional expresse com franqueza as dificuldades e as possibilidades que vê em cada sugestão, tanto para si próprio quanto para a comunidade a que pertence. Aí não vale a pressão de grupo. Uma celebração ecumênica não pode ser pedra de tropeço para nenhuma pessoa que dela participa. Constrangimentos de parte a parte, ainda que reprimidos, não ajudam na busca da unidade.

Evite-se, pois, textos bíblicos controversos, cantos muito próprios de uma só confessionalidade, fórmulas litúrgicas e símbolos característicos de uma só igreja. Pense-se, a cada instante, em não ferir sensibilidades. Arrojos maiores deveriam ser experimentados apenas em grupos com uma história ecumênica maior e só depois de se haverem esclarecido eventuais diferenças doutrinárias.

Ainda em vista das sensibilidades, é importante pensar em explicações do que se pretende, além de ensaios de partes da celebração. A liturgia a ser utilizada deve ser apresentada com clareza à comunidade reunida. Especialmente cantos, refrões e fórmulas litúrgicas que se queiram usar, devem ser ensaiados com a comunidade antes da celebração. Grupos majoritários têm a tendência de utilizar cantos e refrões que lhes são conhecidos e se esquecem de que outras pessoas não sabem cantá-los. E como é ruim a sensação de quem não canta ou apenas faz que canta algo desconhecido! Ensaio é partilha de tradições peculiares. É importante partilhar.

Definição do local da celebração

A definição do local também está ligada à preocupação com a sensibilidade da comunidade. Numa primeira experiência, será sempre prudente escolher um local neutro para a celebração, num templo confessional, numa capela de uma comunidade específica, sempre existem símbolos que podem ferir sensibilidades. Toda e qualquer decoração do ambiente deve ser bem pensada pela equipe que prepara a celebração.

Por outro lado, visitas de parte a parte devem ser estimuladas e encorajadas. É importante que percamos o medo e a rejeição a ambientes próprios de comunidades diferentes. Ao se optar por um templo, em particular, para a celebração ecumênica dever-se-ia garantir o compromisso de rodízio para as vezes seguintes. É um bom costume popular retribuir visitas. Vizinhos vieram visitar-me em minha casa. Esperam agora que eu vá ao seu lugar. Tanto eles quanto eu, faremos todo o possível para que cada qual se sinta em casa alheia como se estivesse na própria.

Definição das pessoas que presidirão a celebração

É importante que todas as denominações representadas desempenhem um serviço ou tarefa na celebração ecumênica. Em celebrações públicas seria ideal que ministros ordenados de cada denominação assumissem os diferentes serviços. Em grupos de estudo, tais ministérios podem ser delegados a outras pessoas. Também aí, porém, que se presida a celebração de forma colegiada, dando a cada parte uma função clara e específica.

Também aqui se deve tomar especial cuidado para não ferir sensibilidades, buscando um bom equilíbrio na distribuição dos serviços. As pessoas de diferentes grupos confessionais que formarão a comunidade ecumênica reunida para a celebração, necessitam sentir-se representadas de igual para igual. Por isso, será oportuno informar a comunidade, já no início, a respeito dos diferentes serviços que cada qual irá desempenhar. Quando necessário e possível, explique-se também as razões da distribuição de tarefas.

A celebração em si

A forma que cada celebração assumirá vai depender sempre da criatividade das pessoa que a prepararem. É importante que se faça uso de ampla liberdade criativa, respeitados os limites que se apresentarão para cada denominação.

Não é nossa intenção apresentar aqui esquemas a serem seguidos por ocasião de celebrações ecumênicas. A riqueza da experiência litúrgica, trazida pelas diferentes denominações, certamente estará presente na sua preparação. Não obstante, queremos apontar para elementos do culto cristão, comuns a nossas igrejas, que julgamos não deveriam faltar numa tal oração comum.

Tomamos por evidente que o culto deva começar com uma boa acolhida, apresentação das pessoas que o presidirão, explicações e ensaios necessários. Também é natural que uma boa e viva celebração conte com muitos cantos, bem ensaiados, a fim de serem cantados com alegria e entusiasmo pela comunidade. Além disso, uma boa celebração ecumênica deveria contar com:

Adoração da Santíssima Trindade

Todos nós temos em comum iniciar nossos cultos com a constatação da presença de Deus. Pai, Filho e Espírito Santo. Conforme o próprio Jesus, onde dois ou três estão reunidos em seu nome, ali ele está no meio deles (Mt 18,20). Cada vez que sua comunidade se reúne, o trino Deus já está presente. Começamos nossa celebração adorando o seu santo nome.

Confissão de culpa e anúncio do perdão

Quando o profeta Isaias, por ocasião de sua vocação no templo (Is 6), constatou que estava na presença de Deus, sentiu-se perdido. Seus lábios eram impuros para louvar ao Senhor. Uma brasa viva, trazida por um dos serafins, purificou seus lábios, e seu pecado foi perdoado.

Também nós, colocados diante de Deus, necessitamos confessar nossa culpa e pedir perdão da parte do Senhor. Numa celebração ecumênica, nossa maior culpa que está diante de Deus é certamente a nossa divisão. É importante que a coloquemos diante dele, e que recebamos o perdão, o anúncio da graça que nos permite buscar a superação que nos divide e separa.

Certamente há muitos outros motivos para pedirmos perdão de Deus. Tudo o que pesa sobre as pessoas reunidas em comunidade deveria ser trazido nesta oração. Talvez seja oportuno lembrar que só podemos pedir perdão pelos nossos próprios pecados. A confissão de pecados não é lugar para denúncia de pecados alheios.

Confessados os pecados, uma ou mais pessoas dentre as que presidem a celebração anunciarão à comunidade, em nome de Deus, o perdão. Uma palavra bíblica reveladora do amor de Deus para conosco expressará a graça do Senhor.

Anúncio da Palavra de Deus

Perdoados por Deus e admitidos à sua presença, podemos ouvir a sua Palavra.

As leituras bíblicas para a celebração ficam a critério dos grupos de preparação. É boa tradição, de todas as nossas Igrejas, ler-se textos do Antigo e do Novo Testamento. Nossa tradição litúrgica propõe mesmo quatro textos: um salmo, um texto do Antigo testamento, um trecho da Epístola e uma parte do Evangelho, todos relacionados tematicamente entre si.

Um de tais textos deveria servir como base para a pregação ou partilha da Palavra. A explicação do texto quer servir à edificação da comunidade. Um pregador, escolhido de comum acordo, enfocará alguns aspectos do texto. Em grupos menores, é sempre interessante dar espaço a que toda a comunidade se manifeste sobre a Palavra.

O Credo Apostólico e o Pai-Nosso

As orações de súplica ou de louvor sempre dependerão do motivo que ocasionou a celebração e deverão ser pensadas no momento de preparação. Contudo, não devem faltar o Credo Apostólico, como confissão de fé comum em todas as nossas Igrejas, e a oração do Pai-Nosso, de preferência na versão ecumênica.

O Credo Apostólico é o mais universal dos símbolos da unidade. A cada Domingo e a cada celebração, nossas comunidades confessam a sua fé com estas palavras. Na distância e na separação, é um importante sinal de unidade.

O mesmo ocorre com a oração que Cristo mesmo nos ensinou, o Pai-Nosso. Nela se incluem todas as nossas necessidades e todo o nosso louvor. Na oração do Pai-Nosso, damos mais um testemunho de unidade, apesar das diferenças. O plural que o perpassa nos irmana em súplica e louvor.

Orações

Além do Credo Apostólico e do Pai-Nosso, uma oração de intercessão, de súplica e de louvor deveria fazer parte do culto. Nela, pedimos por nós mesmos, enquanto comunidade reunida. Aí uma súplica especial pela unidade que buscamos tem o seu lugar, ao lado de outras questões que nos afligem. Não deveríamos, porém, esquecer de interceder por outras pessoas. Na presença de Deus trazemos as dificuldades pelas quais passam irmãos e irmãs, pessoas cristãs ou não, de nosso lugar ou de fora, pedindo que Deus lhes abrande o sofrimento e as ajude a superar seus males, sua opressão, sua falta de pão.

Bênção

Desde os tempos do deserto, o Deus que libertara seu povo do Egito instituiu a sua bênção sobre sua assembléia. Aarão e seus filhos receberam de Deus, através de Moisés, a tarefa de abençoarem o povo dizendo: “O Senhor te abençoe e te guarde; o Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti; o Senhor sobre ti levante o seu rosto, e te dê a paz” (Nm 6,24-26).
Existem outras fórmulas para proferir a bênção. Há também formas coletivas de proferi-la, acompanhada de gestos de pessoa a pessoa na comunidade. Que varie a forma, isto não importa. A comunidade, porém, não pode ser enviada ao mundo, sem a bênção do Senhor.

Comissão Teológica do
Conselho Nacional De Igrejas Cristãs – CONIC

Fonte: Diversidade e Comunhão.

Um convite ao ecumenismo
Paulinas,2004

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